7 de dez de 2016

dois inéditos


bailado do meu feitio de santo daime,          
minha fórmula mágica,                            
ladeira de pedra que acolhe                    
minha procissão do rosário,
fogueira do meu ritual indígena,                       
água que ferve meu peiote,                 
pequena haste de chacrona                     
que abriga milhões de luzes e cores,
onde o soldador no fundo do túnel
recita claridade num mundo escuro;
a que reveste a lombar deste carpete   
que foi massageado por um contêiner                  
que despencou do içador.                 

cotidianamente aproxima-se de
algo que atue como um desinfetante,
- alecrim, camomila, canela -
a que remove todos estes odores de soco,                       
diarreia, disenteria e silêncio.

a homeopatia que sana um organismo.
                 simila similibus curantur.
veneno de cobra que cura picada de cobra.
o poema que
explode esta indústria petroquímica
instalada na beira de um rio.

crio entusiasmados palhaços de folia de reis
para distraírem
os pittbulls de aço galvanizado
que rastreiam
pacientemente
a região da carótida e da medula.   

na barricada na praça de guerra
duas lésbicas negras e gordas
se abraçam e se beijam

é com espanto que se cura um espantado.

o dia em que garcia lorca conhece salvador dali.









ferramentas metalúrgicas
são usadas
em procedimentos cirúrgicos no joelho.
o ortopedista que trata o tornozelo                        
com maquinário de construção civil
                                    é o mundo.
o azul dele não é menos azul que o daquele,
o oxigênio daquele não é mais úmido que o do outro,
e o diagnóstico de ambas as partes
segue constatando osteoporose
                        no verbo abraçar.
é como se a vida
furiosamente
estraçalhasse um laptop e um smarthphone
                                                     na parede.
ás vezes se nina com os braços
um relâmpago, uma enchente
ou um filhote de lontra            
afim de contemplar                                       
o que está na altura de um legume           
e nos metrôs de uma constelação.

a fonte de deslocamentos e espelhamentos
é quando
a colisão discute com o estofado,
o abacate temporão teima,
a alteridade pare conexões
e a larva profana o casulo
                  com decolagens.

também uso como proteína
o canto da lavadeira, o assobio da auxiliar de limpeza
e o abraço da tetraplégica noiva da gorda garçonete.
pois
entre inês de roma e febrônio,
entre catarina de siena e alfonsini storni,
entre o spa e a catarse,
entre o yoga e a hecatombe,
entre o pasto e a perturbação
                      sobre-vivemos